Raízes versus identidade cultural

Atualizado: 20 de Nov de 2019


Publicado em Revista "Leituras da História" (Editora Escala) em Fevereiro de 2018. Páginas 36 a 39.

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Pergunte a qualquer criança bem informada o que é “família”. Ela responderá que toda família é “uma célula social”. Mas o que é isso na prática? Afinal, por que as famílias são tão importantes para o homem? E por que algumas pessoas dizem que essa instituição está com seus dias contados?

Muitos políticos usam a família como bordões para conseguir votos. Defendem a importância da família e dos valores tradicionais em suas campanhas e esperam com o voto do eleitorado restaurar alguns princípios morais e éticos perdidos no tempo.

A palavra “família” remonta do latim “famulu” que significa “escravo doméstico”. Essa designação parece pouco apropriada, mas está mais próximo da realidade do que podemos imaginar. O motivo é explicado pela História.

Há 70 mil anos, os homo sapiens deixaram de ser caçadores-coletores para se tornarem agricultores. Esse fenômeno chamado de “revolução agrícola” ocorreu em um mesmo período da História em diversas partes do mundo. Estima-se que aconteceu por obra do acaso. Ao viajar por grandes territórios, os coletores de comida deixavam cair ao longo do espaço percorrido várias sementes de trigo. Ao refazer o caminho diversas vezes, perceberam que naquele espaço criara-se uma grande plantação. Descobriram dessa forma a agricultura. Acharam então que deveria ser mais fácil cercar a plantação e fecundar a terra do que correr atrás da comida.

A pecuária veio logo em seguida, com a necessidade de cuidar dos animais dentro do mesmo espaço de terra. Mas plantar e cuidar da terra tornou-se uma tarefa complicada e perigosa. Muitos humanos e animais habitando um pequeno espaço de terra era um terreno fértil para doenças. Também era preciso cavar, semear e proteger a terra dos animais e de outros homo sapiens. As famílias se uniram em torno desse ideal. Cada fazenda era administrada por uma família. Várias famílias formavam uma tribo ou uma aldeia. Nessas sociedades, as famílias se uniam e se ajudavam mutuamente.

ORGANIZAÇÃO BÁSICA

Não existia seguro de vida, não existia aposentadoria ou crédito imobiliário. Se uma pessoa queria construir uma casa, precisava contar com membros de sua família ou de vizinhos. Não havia pagamentos. As pessoas se ajudavam, pois dessa forma, fortaleciam a família e a comunidade onde viviam. Os mais velhos eram cuidados pelos mais novos. Os filhos eram a única seguridade social que um homem ou uma mulher poderiam ter. Nesse sentido, pertencer a uma família era a única forma de sobreviver.

Um homem podia gostar de uma mulher, mas só poderia casar-se com ela com a aprovação de sua família. Uma jovem podia ser obrigada pelos pais a casar-se com um homem com o dobro de sua idade. O patriarcalismo era vigente. O líder da família cuidava dos interesses de seus membros. Não havia qualquer noção de democracia ou de direitos individuais como a conhecemos hoje. O líder da família era tão poderoso dentro de sua casa que poderia castigar os filhos se assim desejasse. Havia pouca interferência do líder tribal ou do rei nos assuntos relacionados às famílias. Em resumo: as famílias eram fortes e os indivíduos eram frágeis. O Estado era forte no sentido da representatividade externa, mas não podia intervir nas gerências domésticas e de certo modo dependia da adesão dos líderes familiares e, por conseguinte, dos líderes tribais para manter o poder. O Mercado era baseado em trocas, com diversas taxas de câmbio. Não influenciava significativamente a liderança dos patriarcas. A VILA VIROU CIDADE

Após a Revolução Industrial ocorrida no fim do século XVIII, os líderes familiares começaram a perder seu poder para o Estado e para o Mercado. Hoje, na prática, possuem uma única função social: preparar seus membros e dar a eles alguma segurança psicológica e emocional para lidar melhor com os desafios impostos pela sociedade. O patriarcalismo praticamente desapareceu e qualquer movimento político ultraconservador que prometa reverter essa situação pode ser considerado utópico, senão mentiroso.

Tal situação ocorreu com o crescimento das cidades e com a invenção da escrita há três mil anos. As funções humanas se tornaram mais vastas e mais subjetivas. Agora, existem advogados para falar sobre leis, médicos para cuidar da saúde, cocheiros para cuidar dos transportes, cozinheiras para cuidar dos órfãos da tribo. Cada vez menos gente cuida da agricultura e da pecuária. Há 500 anos, 98% da população cuidavam de sua própria comida, plantando-a. O que sobrava, alimentava os outros 2% que não dependiam da agropecuária para sobreviver.

Hoje, apenas 2% da população cuidam da comida, para que 98% possam trabalhar com outras coisas. Isso só foi possível após a Revolução Industrial que trouxe maquinários pesados para as lavouras do mundo todo. Com o advento da Revolução Industrial, mais fábricas são criadas e mais produtos chegam ao comércio. Pela primeira vez na História, a oferta de produtos ultrapassa a demanda. É preciso gente para comprar tanta coisa útil e inútil. Tal situação econômica levou a sociedade global ao quadro que se encontra hoje: o capitalismo é uma nova forma de religião, o consumismo é uma nova forma de ética, os produtos que compramos são as novas formas de busca de prazer e de interação social.

REGRAS PARA TODOS

Após a Revolução Industrial, as regras e os horários das fábricas tornaram-se regras sociais amplamente difundidas em todo o mundo. Antigamente, apenas um artesão era responsável pela produção de um sapato. Agora, com a produção em série, são necessários diversos homens para operar diversas máquinas. Uma faz a sola, a outra faz o cadarço, a outra faz a palmilha, etc. Se um profissional chega atrasado, causa uma paralisação na produção. Para que isso não aconteça, as fábricas criaram regras únicas para todos os trabalhadores. Todos chegam juntos, comem no mesmo horário – quer tenham fome ou não – e vão embora juntos.

As escolas e o comércio adotaram o mesmo horário, chamado de "comercial". Os indivíduos agora não dependem da família para sobreviver. Dependem do Mercado, do Estado, de suas escolas, de seus créditos bancários, de suas políticas de emprego e de sua seguridade social. Uns membros ganham mais do que outros, o que causa conflitos e desconfianças. O pai e a mãe possuem autoridade sobre os filhos, mas não mais do que a Lei imposta pelo Estado - que pode inclusive tirar o pátrio-poder do(a) líder familiar em caso de abusos ou maus tratos.

Para alcançar a hegemonia dentro das famílias, as leis estatutárias que representam o poder do Mercado e do Estado fortaleceram o indivíduo frente sua família. Prometeram a eles uma pretensa – e diria, confusa – visão de liberdade e de cidadania. A troca de favores parecia justa: o indivíduo dá ao sistema sua força de trabalho, seu voto e o seu consumo e em troca recebe liberdade para se casar com quem quiser, para pegar empréstimos bancários para construir ou para fazer faculdade, para montar um negócio, ou para exercer a profissão que deseja. É evidente que, na prática, na maioria dos casos, essa troca de favores não acontece do modo prometido. O indivíduo dá voto, alimenta o sistema com trabalho e consumo, mas recebe serviços públicos de má qualidade, é escravizado pelo Mercado e se torna alienado em suas próprias funções sociais.

DEMAGOGIA

Muitos políticos de direita prometem a restituição de leis tradicionais que teoricamente reforçariam o papel das famílias. Mas nem sempre sabem de fato do que estão falando. Equivocam-se ou estão mal intencionados, pois atuam em esferas de poder controladas pelo mercado e pelas Leis do Estado. Leis essas imutáveis, como os Direitos Humanos.

Essa nova égide social levou apenas 100 anos para ser constituída. Apesar de ser definitiva, é ainda muito nova e, por isso, ainda gera muitos conflitos dentro das famílias, principalmente em regiões afastadas dos grandes centros urbanos. É preciso, pois criar movimentos de esclarecimento e de debates em escolas e em outros centros de convívio social dentro das áreas rurais e nos subúrbios das grandes cidades. Muitos chefes de família sentem-se traídos pelos próprios filhos quando esses entram para o exército, buscam escolas do governo, trabalham fora e “abandonam” a agricultura ou o comércio familiar. Por outro lado, no Brasil, muitos políticos ultraconservadores e líderes familiares continuam confundindo o conceito de família com patriarcalismo fundamentalista. Esses saudosos líderes criticam o surgimento das novas comunidades familiares como se esse fenômeno social fosse voluntário. Não é!

O Mercado criou tal situação. Antigamente existiam apenas as famílias alargadas e nucleares. Hoje, existem conceitos naturais como monoparentalidade que antes era considerado não só uma abominação social como também era tratado como um fruto da heresia cultural e religiosa. Família homossexual é um tema ainda mais difícil de abordar com certos grupos ditos tradicionalistas se levarmos em consideração que muitos sequer aceitam o que chamam de casamento “inter-racial”. As mudanças ocorreram rápido demais, fruto de uma dinâmica natural que responde aos chamados de uma suposta liberdade individual proposta pelo Estado. Veio de mansinho e se instaurou no coração das pessoas tornando-se um paradigma social. Ele talvez não possa ser substituído, mas talvez ainda possa ser transformado, desde que haja professores, líderes comunitários, líderes familiares, agentes públicos e políticos interessados não só em estudar o fenômeno social como entender esse período histórico. Caso contrário, tal entendimento deixará de ser massivo e ficará restrito às salas de aula das universidades.

Tal situação cria, no universo das contrariedades, um imenso desafio para o professor, principalmente aquele que atua nas redes públicas. São obrigados pelo dever cívico a reforçar a importância da família, ao passo que precisa preparar um cidadão para exercer um papel social que implode o poder da instituição familiar, o que gera, a cada década que passa, uma sensação de que, cada vez mais, os indivíduos globalizados e recrutados pelo Mercado e pelo Estado perdem suas raízes e, com elas, suas verdadeiras identidades sociais.

João Pedro Roriz é escritor, jornalista e estudante de História, autor de 30 publicações, incluindo “Almanaque da Cidadania” (Paulus 2014).

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