Chica da Silva: a história verdadeira por trás do mito

Atualizado: 23 de Nov de 2019


Chica da Silva viveu na região da Diamantina no século XVIII

O Brasil não foi "descoberto" por portugueses, foi colonizado. Logo após a chegada dos lusitanos a Pindorama (nome indígena para essas terras), a colônia foi dividida entre nobres e explorada. Não tardou, os portugueses passaram a escravizar os índios. Alguns eram capturados a força, outros eram trocados por armas, espelhos e outros pequenos artefatos criados pelo homem branco. Mas o índio não era bom escravo. Com espírito selvagem e livre, davam muito trabalho a seus senhores: fugiam, se tocaiavam e desapareciam. Muitos morriam de gripe, pois sua etnia não tinha defesas para as doenças dos brancos. Foi por isso que, cinquenta anos depois do começo da colonização, começou o tráfico negreiro que trazia homens, mulheres e crianças da África na condição de escravos para o País do Cruzeiro.

Os negros eram sequestrados em terras de além-mar e viajavam sujos, doentes e maltrapilhos nos porões das naus que atravessavam o Atlântico em direção ao Brasil. Depois de chegar, eram separados por estrutura física, função e procedência. Para tanto, eram montados verdadeiros pontos de venda, verdadeiros mercados a céu aberto, onde os africanos eram avaliados como novilhos. Homens fortes eram vendidos para trabalhar nas lavouras, nos engenhos e nas minas; as mulheres e as crianças eram destinadas a trabalhos domésticos.

Condição desumana a que eram submetidos os negros escravizados no Brasil

Em 1720, foi capturada uma mulher chamada Maria da Costa, na Costa da Mina (Guiné). Esse era seu nome cristão. Não existem dados de seu nome verdadeiro. Foi imediatamente levada para o Arraial do Milho Verde, aldeia próxima a Vila do Príncipe, em Minas Gerais para prestar trabalhos forçados. Naquela região seria descoberta em 1729 uma enorme mina de diamantes, o que atraiu a atenção de extrativistas de todo o ocidente. O fluxo de pessoas para aquela região aumentou vertiginosamente. Chica da Silva teria nascido entre 1731 e 1735, filha de Maria da Costa com seu proprietário, um capitão português chamado Antônio Caetano de Sá. De acordo com dados históricos, tudo leva a crer que Maria da Costa era escrava íntima de Antônio Caetano, usada por ele para satisfazê-lo sexualmente. Infelizmente essa era uma prática muito comum na época, o que era combatido pela Igreja católica. Os homens brancos justificavam os atos de exploração afirmando que o Brasil era uma terra nova, com poucas mulheres brancas. De fato. Tal situação levou a Coroa portuguesa a expatriar prostitutas e enviá-las para a colônia tupiniquim, com o argumento de que as novas terras lhes dariam novas oportunidades de casamento com homens considerados "de bem".

Ilustração do extrativismo mineiro na era colonial.

Os negros alforriados tinham o direito de usar sapatos, enquanto os cativos eram obrigados a andar descalços. Muitos "proprietários" libertavam seus escravos no leito de morte para ganhar a absolvição divina. Alguns escravos entravam em acordo com seus senhores: trabalhavam durante o dia e durante a noite para "pagar" pela própria alforria. Alguns negros como Zumbi dos Palmares conquistaram a liberdade após fugir do cativeiro. Essa prática era perigosa para o escravo, pois existiam pessoas especializadas em perseguir e encontrar o que a elite denominava de "negro fujão". Alguns escravos conseguiam a alforria por intermédio de autoridades religiosas ou políticas. Às vezes, filhos de escravas com seus senhores eram alforriados a mando da Igreja na pia batismal. Importante ressaltar que isso nem sempre acontecia por uma questão moral, mas sim porque a Igreja via com maus olhos a relação de um branco com um negro. A mistura de "raças", segundo a ciência da época, poderia gerar crianças com distúrbios mentais.

A vida de uma criança escrava não era fácil. Logo após o nascimento, era obrigada a acompanhar a mãe em sua vida de trabalho forçado. As crianças eram carregadas em panos grudados ao corpo de suas mães. 50% das crianças não sobreviviam a fase de lactância devido as doenças comuns na senzala. Muitos senhores de escravo praticavam atos de maldade com as crianças para que seus pais não deixassem de trabalhar. E qualquer amotinamento ou desobediência era violentamente castigada. Para tanto, havia na época grande arsenal de instrumentos de tortura física. Os escravos eram aprisionados sob o sol; muitos tinham os órgão genitais machucados, ou sofriam dolorosas chicotadas presos a troncos que ficavam na região central da fazenda. Quando um negro era açoitado, os demais eram obrigados a ver, para que o fato servisse de lição.

A serventia forçada dos negros escravos começava aos 7 anos

Aos 7 anos, a criança já era obrigada a trabalhar dentro da casa de seu senhor e aprender um ofício. Muitas escravas eram exploradas sexualmente por seus senhores. Acredita-se que esse foi o caso de Chica da Silva, já na puberdade, quando foi comprada por Domingos da Costa, um ex-escravo e depois revendida para Manuel Pires Sardinha, um médico. Junto com Chica, outras duas escravas - Antônia e Francisca Crioula (sic) também eram exploradas sexualmente. Chica engravida de Simão Pires Sadrinha em 1750 e vê o filho ser absolvido na pia batismal. O fato aconteceu após a Igreja Católica receber denúncias de maus tratos. Ameaçado de excomungação, o médico dá a seu filho a alforria e coloca seu nome no testamento, mas não assume a paternidade.

Chica da Silva foi novamente vendida em 1753, dessa vez para João Fernandes de Oliveira, um contratador de diamantes - cargo muito importante na corte portuguesa. João era muito rico e cuidava pessoalmente da exploração dos rios brasileiros. Ao chegar ao Arraial do Tejuco, região onde hoje localiza-se Diamantina, pede ao Vice-Rei do Brasil para explorara as lavras do Rio Pardo e do Rio Jequitinhonha, uma vez que as lavras dos rios Caeté Mirim e Carambolas já estão esgotadas. Assim que chega à cidade, compra Chica da Silva de Manuel Pires Sardinha por 800 mil réis e oferece-lhe a carta de alforria como presente de natal no primeiro ano de relacionamento.

Casa de Chica da Silva, em Diamantina - MG

Existe um mito de que Chica da Silva era feiticeira ou mesmo uma prostituta de luxo. Essas versões denotam o preconceito étnico e social com essa personagem inusitada da história nacional. Chica da Silva era uma pessoa escravizada. Logo, tinha seus direitos básicos totalmente negados. Além de tudo, era explorada sexualmente, o que a transforma em uma vítima das circunstâncias. É também um exemplo de extremismo e ignorância apresentar Chica da Silva como modelo de empoderamento feminino ou negro. Não há talento que justifique isso, apenas um fato inusitado para a época: Chica da Silva, uma mulher negra do século XVIII torna-se a esposa de um importante comerciante, membro da corte portuguesa no Brasil. Mas o fato não denota nenhuma característica sobrenatural, muito menos ética ou moral. Sua condição como mulher rica e bem casada atraía olhares maldosos e gerava inveja mesmo às mulheres brancas de sua época. Era mais fácil assumir uma posição de enfrentamento à imagem de Chica da Silva do que conformar-se com o fato de que uma ex-escrava conquistara o coração de um homem rico. Esse preconceito gerou uma imagem mítica em torno da ex-escrava. Isso faz com que ilustrações ou representações artísticas da personagem sempre a apresentem de forma lasciva, com seios a mostra, expressão de desejos e com roupas que lembram estandartes de carnaval.

Chica da Silva sempre foi acusada de dar um "golpe do baú". Mas essa versão, além de preconceituosa, é incorreta. É bem possível que Chica da Silva não tenha se casado por amor. Mas isso não era incomum para uma época em que os casamentos eram arranjados. Mesmo as mulheres brancas não casavam por amor. Elas casavam para ascender socialmente, haja vista que eram impedidas pelas famílias de trabalhar ou estudar. A única diferença entre Chica da Silva - escrava, negra e explorada sexualmente - e as chamadas "mulheres de bem" - brancas e "bem nascidas, - é que Chica não era virgem e por ser negra não tinha o direito jurídico de se casar. Apesar disso, João e Chica tiveram um relacionamento estável e uma prole alargada. Foram 13 filhos. João ainda assume a paternidade de Simão, filho de Chica com Manuel Pires.

Chica é comumente representada de forma lasciva

Em 1770, João retornou para Portugal e levou com ele seus filhos homens. Deixou Chica e suas filhas no Brasil com uma boa quantia de dinheiro. A ex-escrava, agora chamada de Senhora do Tejuco tornou-se uma das mulheres mais rica da região. Ela mesma tinha seus escravos e ia todo domingo à missa na Igreja São Francisco de Assis, destinada apenas aos brancos. Suas filhas estudou no Recolhimento das Macaúbas, instituição destinada para os ricos. A igreja católica recebia generosas doações de Chica e, por isso, evitava confrontos com a ex-escrava.

Livro "Chica da Silva", publicada pela Paulus, para

crianças e adolescentes. Autor: João Pedro Roriz.

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Chica da Silva morreu em 1796. Ela vivenciou como escrava e senhora, o sistema de poder oligárquico que ainda está em voga na nação brasileira, onde o poder compra armas, cria hierarquias, desvirtua códigos morais e cria culturas seculares de submissão difíceis de serem combatidas.

É por isso que a história de Chica da Silva é tão importante. Abordar o tema nas escolas é uma forma de criar uma reflexão sobre a cultura escravagista - que no Brasil terminou apenas em 1855 - e suas graves consequências sociais.

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João Pedro Roriz é escritor e jornalista

Autor de "Chica da Silva", livro infanto-juvenil publicado pela Editora Paulus. (saiba mais).

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