Literatura sem luz

Atualizado: 26 de Nov de 2019


Uma chuva magnética trouxe terríveis estragos para Porto Alegre. Ficamos sem água, luz e telefone. Estávamos presos a um espaço-tempo desconhecido. Os celulares estavam descarregados e era impossível saber as horas. Não podíamos comer, pois o forno é elétrico e não havia fósforos para ligar o fogão a gás.

A TV e a internet estavam inoperantes. O tempo parou. Como sobreviver a isso? Antigamente era fácil: lençóis se transformavam em cabanas, tapetes em autoramas; cabos de vassoura viravam espingardas.

Quando moleque, sentava-me à mesa com lápis, borracha e papel e escrevia horas a fio. As histórias eram confeccionadas artesanalmente para serem lidas para a família após o jantar. Saberia fazer isso de novo?

A vizinha emprestou velas. Corri para o escritório e tive lembranças de tempos proscritos. Ansiedade. Respiração compassada. Esforço físico. Como escrever a mão é difícil! A plataforma de produção literária modificou a passada de minhas expressões. O pensamento se tornou fracionado. As palavras foram cozidas por hora no fogo brando das invenções.

Antes da TV e do Rádio, a literatura era a única mídia que invadia a casa das pessoas. Bom ou ruim, o livro era artesanal em sua fonte. As histórias, as informações e as teorias eram escritas à mão com direito a arabescos e solilóquios, sem adiantamentos multimilionários, prazos apertados e listas dos mais vendidos do New York Times.

Ainda bem que a eletricidade ainda não cegou os professores. Na escola, as crianças ainda aprendem a pegar em lápis e borracha, ainda leem os mestres da literatura. Saberão o que fazer com o tempo e o espaço caso a energia não volte mais.

Se isso acontecesse, teria que mudar de profissão. Não poderia mais produzir histórias e desenvolver contextos de forma tão sofrida. Minha ansiedade me tomaria à força. Nu, encharcado de suor, estaria como agora, agonizante para chegar ao fim.

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João Pedro Roriz é escritor, jornalista e arte-educador. Todos os direitos reservados ao autor

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