Ontem


Já foi estranho quando aquele menino, seu irmão, filho do seu pai, um dia amanheceu diferente: olhos menores que o queixo, cabelo esportivo, uma sede nova... Perdoe-me pelas reticências. Sou da época das reticências, do antigo acordo ortográfico; da época que Plutão – lembra de Plutão? – era um planeta.

“Eu sei, eu sei”, dirão aqueles que ainda estão por aqui: “passei por isso. Você mesmo, até pouco tempo era só um menininho”.

Agora tenho que lidar com o fato de que os filhos daquela geração de pequeninos já cresceram. Há esperança no mundo?

Os boas-praças da velha guarda devem estar rindo: “você ainda não viu nada! Ainda vai ver a quinta geração de fedelhos encarar você, tête-à-tête e não desviar o olhar”. Como são marrentos esses moleques. Ah, eu sei, já fui moleque, eu sei.

Mas o que entope minhas vias aéreas não é o contínuo caminhar das horas, nem o tempo que passou. A vida continua boa e mudança é sempre bom. Afinal, um quê de eterno nos frustraria quando pensamos no mundo como um objeto em contínua evolução. O que me faz perder as palavras é a ausência da cor nas fotos – o desbotamento de alguns sorrisos e o tropeção em algumas lápides que volta e meia plantam no meu caminho.

No universo paralelo, adquirido pelo homem no cyber-espaço, percebo, há um movimento de resguardo das memórias através das fotos, das lembranças, do momento que já passou. Mas o que falar do momento por trás do momento? Aquele brilho nos olhos de quem já adquiriu a ternura de olhos rasos, o sorriso infante de quem já tem barbas, as mãos dadas de quem não se ama mais, o sentido que a vida prometeu ter...

Quando terminamos um relacionamento, deixamos de lado algumas predileções, mudamos de emprego, nos despedimos de um ente querido, ou mudamos de casa, nos sentimos bem. É um bom-bocado de sol que ilumina o espírito. Sim, mudar é bom. Mas não faça tanto teatro. Deixe de fingir por um instante. Somos relíquias do tempo e no desvão da incerteza, fomos capazes de esculpir sorrisos na pedra. Fomos felizes quando nunca, transformamos músicas bobas em grandes hits, rimos aos tropeções e nos quedamos na lama como se caíssemos numa piscina de três mil litros – igual àquela que meu pai armava todo verão. Éramos pobres, mas não nos sentíamos assim. Não importa se isso aconteceu há dois ou vinte anos. Ontem mesmo, sinto que éramos crianças. E hoje, paradoxalmente, nos sentimos saudosos por ser aquilo que sempre se quis.

João Pedro Roriz é escritor e jornalista

#vertigens

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