CRÍTICA AO LIVRO - "Ratos" de Gordon Reece

Atualizado: 13 de Dez de 2019


THRILLER COM TOM JUVENIL QUE DIVERTE E ASSOMBRA

“Você é um homem ou um rato”, a pergunta ainda não foi respondida. Antigamente, era assim que nossos pais e professores resolviam nossos problemas, nos desafiando. “Pai, sabe o Lucas, aquele monstrengo do oitavo ano? Ele me bateu!”. A resposta era imediata: “vá lá e bata nele também”. Como o garoto era imenso, preferia esquecer a história mais uma vez.

Não foi a toa que me identifiquei com o livro “Ratos” (original Mice), de Gordon Reece, lançado em 2010 no Brasil pela Intrínseca. Em um roteiro que denota a cultura de violência no mundo moderno, o autor deflagra a diferença entre ratos e gatos, entre pessoas que não gostam de confrontar seus algozes e homens que ainda estão ligados a seus sentidos primários. Shelley é uma adolescente de 16 anos vítima de bullying, que após sofrer um ataque quase fatal de suas algozes, opta por estudar em casa em um reservado chalé recentemente adquirido por sua mãe no interior. Sua vida com sua mãe divorciada mudará quando, em certa noite, a menina escuta passos no meio da noite, indicando que algum estranho invadiu seu mundo.

Até metade do livro, verifiquei certa relação da obra com o universo infanto-juvenil. E minha análise não se baseava no fato da protagonista ser uma adolescente. Os capítulos curtos e temática do bullying logo no começo da história poderão confundir alguns leitores, mas assim que o feedback passa – ele é necessário para compreender a história e o conflito da protagonista – o leitor relaxa e avança sobre uma seara escura de pequenos lumes cordialmente orquestrados para a diversão adulta. Não foi com surpresa que, ao ler a biografia do autor Gordon Reece, descobri que antes desta publicação, escrevera obras juvenis e infantis. Ou seja: o retrato de sua alma predominantemente infantil, com suas assertivas paradidáticas, seu olhar polêmico e instigador, seus capítulos curtos e sua predileção pela protagonista adolescente cheia de conflitos estavam diagnosticados.

O autor cria os momentos de suspense do livro com muita propriedade e chega até a pecar no excesso de detalhes ao abordar o caráter psicológico dos personagens. A escrita em primeira pessoa com eu-lírico feminino é esplendorosa. A abordagem dos temas sob o olhar de uma adolescente e de uma mãe cansada é cheia de assertivas do começo ao fim do livro. A proposta da obra não é pretensiosa, mas o texto é gostoso de ler. A história diverte os fanáticos por suspense e cria uma atmosfera de indefinição típica dos thrillers e de impacto a cada nova revelação. O autor prepara o leitor para cada acontecimento. Ainda assim, a forma como o momento se revela é algo que aguça a curiosidade e, de algum modo, mesmo previsto, a história consegue chocar. Fragilizado junto com as personagens femininas, o leitor fica a mercê de uma série de ameaças de um mundo escuro e perigoso criado excepcionalmente para esta obra.

João Pedro Roriz é escritor e jornalista. Todos os direitos deste texto estão reservados ao autor. www.joaopedrororiz.com.br.

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João Pedro RorIz

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