Análise do filme "Freud Além da Alma"

Atualizado: Jul 4





Por João Pedro Roriz. Rio de Janeiro.


Debruçar-se sob a Psicanálise e os mistérios da consciência humana – dividir-se entre as próprias lembranças e as visões de um mundo plural dentro de si – são temas fantásticos, catárticos e envoltos em uma nuvem de questionamentos. O filme “Freud Além da Alma”, de 1962 de Jhon Huston, com magistral atuação de Montgomery Clift em derradeiro grande trabalho no cinema, apresenta a vida do jovem Freud, com um recorte que se inicia com seus trabalhos com Breuer no campo da hipnose, até suas descobertas sobre a sexualidade infantil, amplamente rechaçadas pelo colegiado médico da época.


O filme apresenta as angústias pessoais e profissionais de Freud, um médico neurologista oriundo de família pouco abastada e alargada, morador de Viena, que se aprofunda em suas pesquisas sobre o funcionamento da mente humana. Sua principal paciente, no filme, Cecily Koertner, é uma fusão de diversas pacientes histéricas atendidas por Freud na vida real – principalmente Elizabeth Von R. e Bertha Pappenheim (chamada por Breuer pelo codinome “Anna Ó”) – que apresenta um quadro de cegueira histérica e paralisia das pernas. O tratamento realizado pelo jovem neurologista é baseado na maiêutica socrática, que permite o paciente exprimir o que sente e, assim, fluir ideias sobre si, e expor, através de livre associação, o que sente. Freud percebe, através dessa pesquisa, que o inconsciente recém descoberto por Breuer, pode ser acessado também através da análise dos chistes, dos atos falhos e dos sonhos.


O filme aborda a Teoria do Trauma e as primeiras ideias sobre a Teoria Topográfica, além das análises dos mitos gregos qcomportamentosue pressupõem humanos passíveis de serem interpretados à luz da análise do inconsciente. No começo do século XIX, a medicina, operada por uma elite branca e masculina, era baseada em contextos absolutamente racionais sob império do cientificismo – ideologia que levaria o homem a duas grandes guerras no século seguinte. A psicanálise, mesmo em seus primórdios, longe ainda de ser uma teoria que revolucionaria a psicologia moderna, é, naquele momento, desconfortável para a sociedade médica, justamente por descaracterizar os domínios da razão humana e pressupor que o Homem seria comandado por seu inconsciente inconfesso. A sexualidade na prima infância e a teoria do Complexo de Édipo coloca mais lenha no acalorado debate quando provoca o tabu burguês que repele a ideia de um instinto primário no homem racional e que ao mesmo tempo enleva as suposições sobre a inocência infantil, baseada em ideologias religiosas e nas filosofias iluministas que descreviam crianças como “tábulas rasas”.


Breuer, parceiro de Freud em “Comunicações preliminares” refuta publicamente a teoria da sexualidade infantil. O filme denota com peculiar sensibilidade o sofrimento do mentor de Freud em deixa-lo, uma vez que estava postulado ao cargo paterno do jovem neurologista após a morte do pai dele. O filme não aponta o desenrolar dessa história, mas deixa claro que, sob aspecto dessa nova teoria, é possível observar que o embate entre forças instintivas e repressoras dá origem ao sintoma e o que o mesmo pode ser tratado, bastando, para isso, autoconhecimento através de análise dos fatos desagregadores do paciente. Freud perceberia, em 1987, que a teoria topográfica é insuficiente, tornando-se necessárias novas formulações que o levam a conceber a Teoria Estrutural, baseada na estrutura tripartide (“Isso”, “Eu” e depois o “Supereu”) que culminaria na produção do livro “O ego e o id”, em 1923.


O livro Freud: uma vida para o nosso tempo”, de Peter Gay é um grande dicionário sobre o Pai da Psicanálise. Nessa biografia considerada a melhor de todos os tempos, é possível analisar vida e obra, além dos bastidores de suas grandes conquistas, tanto as preliminares, exploradas pelo filme aqui citado, quanto sua conceituação sobre o narcisismo e sobre a dissociação do ego. Em “Feitichismo” (1927), Freud lança luz sobre a existência de uma parte psicótica e não psicótica da personalidade humana. O primeiro capítulo da obra-base do curso de Psicanálise do CETEP, intitulado “Fundamentos da Psicanálise: teoria, técnica e clínica”, de Zimerman explora com grandes assertividades a fase em que Freud diz ter “saído do isolamento”. O ano é 1906, quando se junta a Abraham, Ferenczi, Sachs, Steckel, Jung e Adler, até a dissidência dos três últimos em 1914. É uma fase de ouro, com produções sistemáticas realizadas todas as quartas-feiras sobre o inconsciente dinâmico, sobre as vias de acesso principais (livre associação e sonhos), sobre sexualidade da criança, sobre fenômenos das resistências – momento fundamental para a análise das ações ditadas pelo inconsciente e sobre os conflitos psíquicos resultantes das forças contrárias do consciente.


As reuniões da Quarta-Feira, rebatizadas de Reuniões de Médicos Freudianos se transformam, posteriormente, no 1º Congresso Psicoanalítico Internacional em 1908. Em 1910, os membros fundam a Associação Internacional de Psicoanálise em Nuremberg. Com a dissidência de Jung e os outros dois psicanalistas, há a necessidade da formação do Círculo dos Sete Anéis formado por Freud, Jones, Ferenczi, Rank, Abraham, Sach e posteriormente Eitington. O “Círculo” buscava entendimentos entre si antes de lançar ao público quaisquer mudanças sobre as bases da Psicanálise.


Com os desdobramentos da Primeira Guerra Mundial (1914- 1918), Freud reanalisa suas versões sobre as pulsões (energias que movimentam o ID) e postula suas ideias sobre a pulsão de morte, além de adaptar a etiologia da libido sexual e a ideia de que a repressão também poderia alterar os impulsos agressivos. Como resultado, escreve “Além do princípio do prazer”, em 1920. É nessa época que começa a esboçar estudos inconclusivos sobre mecanismos de defesas mais primitivos como a projeção, introjeção, dissociação endopsíquica do ego e a importância da contratransferência. Uma curiosidade que tornou-se perfumaria da História da Psicanálise vem a tona nessa época, ao trazer questionamentos sobre a sexualidade do próprio Freud – ele teria assumido desejos homoafetivos pelo amigo Fliess no passado; além de apresentar quadro de paranoias e de melancolia por conta da dissidência de outros grandes nomes de seu apostolado, como Rank. Segundo Gay (2012:484), Freud sentiu a partida de Rank - a quem considerava um “filho edipiano” e, às vezes um “empreendedor ganancioso”.


Com o término da Primeira Guerra Mundial, a Psicanálise vive o início de sua decadência, contraditoriamente ditada pelo crescimento da popularidade da teoria psicanalítica, com desagregações e novos postulados e migração do epicentro teórico para os EUA com H. Hartmann. Tais eventos forçaram os psicanalistas conservadores a criar na França a Escola Estruturalista, que buscou um “retorno à Freud”, através de Lacan. Mas ainda assim, há surgimento de versões culturalistas de Fromm e Horney, estudos de Mahler sobre os estágios evolutivos da criança e o surgimento da Escola Kleiniana que, após a morte de Freud, descaracterizou o enfoque triangular edípico, algo que, para Zimerman (1999:26), era “medular” na obra do Pai da Psicanálise. A escola originou outros dois ramos especiais nas pessoas de Winnicott – que estabeleceu novas bases da psicopedagogia – e Bion – que lançou luz sobre a analise grupal e sobre psicose – ambos dissidentes que negam em 1957 a chamada “inveja primária” de Klein.


Com isso, a Psicanálise transitou, em apenas um século, por três períodos típicos: a psicanálise ortodoxa, a psicanálise clássica e a psicanálise contemporânea. Atualmente, a metodologia de exploração do aparelho psíquico busca consolidação e ainda vive em estado de crise por conta da abundância de tratamentos alternativos, mudanças de mentalidade, surgimento de novas tecnologias, desenvolvimento de neurociências e intensa campanha de descrédito.


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SOBRE O AUTOR

João Pedro Roriz é escritor, graduado em Jornalismo e História, pós graduado em docência do curso superior. Pós-graduando em psicopedagogia e aluno de Psicanálise


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


  • GAY, Peter. Freud: uma vida para o nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

  • Zimerman, David E. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica: uma abordagem didática / David E. Zimerman. – Dados eletrônicos. – Porto Alegre : Artmed, 2007.


FILMES CONSULTADOS

Freud: além da alma. Direção: John Huston. Estados Unidos, 1962.

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