O passado cobra caro a América Latina

Atualizado: 20 de Nov de 2019


Protestos no Chile contra a política liberal motiva desejos por uma nova Constituição

O que há em comum nos fenômenos políticos sul-americanos atuais? Que novelo de linha é esse que, ao se desenrolar, deu origem à deposição do presidente da Bolívia, às ameaças do clã Bolsonaro a democracia aqui no Brasil, a inusitada presidência "compartilhada" na Venezuela, aos movimentos de massa no Chile?

É o passado batendo na porta e cobrando caro uma pendência que é adiada desde a revolução burguesa na França nos idos do século XVIII.

Ao tomar o poder na França em 1789, os políticos girondinos e os politicos jacobinos tinham algo em comum: o ódio ao absolutismo e tudo que o Rei representava. Deposto o monarca, sobraram rusgas entre as duas representações formadas por conservadores girondinos e os progressistas jacobinos. Assim inicia a dialética que move, de forma um pouco parecida, a maioria das dinâmicas de poder nos países do mundo ao longo da História.

Girondinos sentavam a direita no parlamento francês, jacobinos a esquerda. E é desse modo que nasce uma nova forma de paradigma ideológico, algo notável ainda hoje nos EUA e em muitos países onde o Capital tem importância. Até mesmo no período de ditadura no Brasil era possível ver a Arena representando o poder militar conservador e o figurativo MBD como partido de oposição com tendências democráticas e "progressistas".

Um século depois da Revolução Francesa, o filósofo Karl Marx (1818-1883) estudou o Capitalismo e pensou uma alternativa para esse sistema econômico. Direita e esquerda agora assumiam ideologias econômicas distintas, categorizadas como capitalismo e comunismo. Essa nova dialética se tornou acirrada e dividiu o mundo durante a Guerra Fria (1945 - 1989). Com o fim do bloco comunista e com a hegemonia do capitalismo no mundo, a esquerda, na maioria dos países, se adaptou e passou a simpatizar com a visão social, uma tendência do socialismo marxista adaptado aos padrões da vida moderna capitalista. Já os direitistas e os políticos de centro simpatizaram com o modelo neoliberal que defende o estado mínimo. Mais uma vez, há uma dicotomia da ideologia econômica e política separando os dois grupos.

Desde a percepção de Marx e sua teoria de que a História poderia ser descrita pela luta entre classes - o que ficou conhecido como "materialismo histórico" - direita e esquerda criaram a partir da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) meios de negociação. A esquerda passou a representar as minorias e os trabalhadores, enquanto a direita passou a representar os grandes grupos econômicos e os donos de bens de consumo. Os meios encontrados para a negociação vieram através de acordos. São eles: os direitos humanos, as leis trabalhistas, as leis sociais e os estatutos. No Brasil, a Constituição de 1988 foi apelidada por Ulisses Guimarães como "A Constituição Cidadã", uma conquista para os trabalhadores e para os pobres de nosso país, pois defendia direitos ignorados nas Cartas anteriores.

É imperioso analisar que a América Latina possui história diferente daquela vista na Europa, nos EUA e em diversos países de outros continentes. Os países da AL viveram em tempos modernos o trauma do escravismo, do assassínio e perseguição de índios e do pacto colonial que destituiu seus territórios de riquezas e trancou sua evolução econômica. Falar na América Latina em "estado mínimo" é negar a importância das ações sociais em países onde historicamente impera a diferença entre as classes e a miséria.

A América Latina chegou a um ponto onde é possível observar que se esgotaram as negociações políticas entre as classes. Essa falta de paciência deriva de três motivos: a crise econômica mundial (iniciada em 2008), o aumento da extrema-direita em todo o mundo e a existência de governos populistas de esquerda que ao longo dos anos 2000 conseguiram imprimir uma política social que agradou as massas. Esses governos se tornaram poderosos na Venezuela e na Bolívia; incharam os estados nacionais e buscaram meios para se perpetuarem no poder. Evo Morales na Bolívia e Maduro na Venezuela erraram ao emparelhar seus governos trabalhistas com os sindicatos e com a Justiça. Mesmo com apoio social para isso, lograram suas iniciativas de forma antidemocrática. Em contrapartida, houve um avanço das medidas militares extremas sob ordenamento das elites em todo o continente sul-americano - algo igualmente antidemocrático e antissocial. No Brasil, um juiz emparelhado com politicos de direita tratou de perseguir Lula, um ex-presidente e ex- líder sindical, após o impeachment igualmente inconstitucional de uma presidenta eleita pelo voto dos mais pobres.

Os políticos de direita clamam pela alternância de poder na AL mas não estão alinhados com as necessidades do povo - apenas com o Mercado - e, por isso, nem sempre possuem a maioria durante as eleicões. Desesperados, usam seu capital para atentar contra a democracia, seja através de processos juridicos-politicos e campanhas violentas repletas de fakenews (como se viu no Brasil), revanchismo, violência ou coerção ao povo que se manifesta (como ocorreu no Chile) ou ataques a líderes populares (como acontece hoje na Bolívia e no Brasil).

Em meio a essa guerra de representantes, estão os povos, estão as instituições públicas, está a democracia, a esperar por bom senso dos dois lados, por novos meios de negociação que regulamentam as ações e que denotam a importância dos dois grupos sociais e de seus representants; que oportunize novas maneiras de relacionamento e que conduza as classes políticas para um espaço de diálogo, para o bem estar de todos, de modo equilibrado e civilizado.

João Pedro Roriz É historiador, jornalista e escritor.

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