João Pedro Roriz

Preconceito com o artista

27 Feb 2018

"Tenho certeza que ninguém consegue pensar em um mundo sem artistas, desde que, evidentemente, essa responsabilidade não recaia sobre um membro de sua nobre família".

 

Desde pequeno escuto: "você vai trabalhar como artista? Vai morrer de fome". Não morri. Ainda hoje alguns incautos me perguntam: "escrever dá dinheiro?" A resposta é não. Escrever não DÁ dinheiro. Quem DÁ dinheiro é o Silvio Santos. Escrever dá muito TRABALHO e o TRABALHO rende dinheiro. As pessoas tendem a pensar em dinheiro como único fim e esquecem da felicidade, ou daquilo que oportuniza crescimento e traz satisfação pessoal. Se você é bom em algo, tem muito mais chances de se destacar nessa profissão e ganhar dinheiro. É um pensamento óbvio, mas pouco levado a sério. Muitas pessoas vão para as faculdades não para estudar, mas para apenas conseguir uma insígnia que as levará ao mercado de trabalho e ao sonhado poder de compra. O capitalismo é uma nova religião e o consumismo uma nova forma de ética. As pessoas hoje se comparam de acordo com seus ganhos e se unem de acordo com suas compras.

 

É difícil ver alguém ser valorizado pelo esforço, independentemente se ele resultou em um fim. E para piorar, muitos artistas sofrem com um preconceito absurdo e absolutamente inexplicável. Acham que nascemos com a bunda virada para a lua, acham que somos malditos hippies viajandões. Pensam que somos todos comunistas, ou que somos vagabundos. Eu mesmo, tenho duas faculdades e pós graduação. Estudei a beça para poder escrever e produzir o meu trabalho. Publiquei 30 livros e sempre me sustentei com arte. Mas não foram duas ou três vezes que ouvi a seguinte pergunta: "mas qual é o seu trabalho DE VERDADE?".

 

Tenho 36 anos de idade, 20 anos de carreira artística, mas vários parentes e conhecidos acham que minha arte é apenas uma "fase que passará logo", uma espécie de desvario juvenil inconsequente. O que me deixa bobo é ver que não adianta trabalhar todos os dias, ganhar muito dinheiro com arte, ser culto, ser pluralmente admirado e mostrar resultados concretíssimos e definitivos. Ser artista, para MUITA GENTE, é estar fadado à incerteza financeira ou à imaturidade. A raiz desse tipo de pensamento é PRECONCEITUOSA. Tenho certeza que ninguém consegue pensar em um mundo sem artistas, desde que, evidentemente, essa responsabilidade não recaia sobre um membro de sua nobre família.

 

Tenho uma amiga pianista que é RICA. E ela é RICA porque é uma ótima concertista. Ela sofre PRECONCEITO no prédio chique onde mora. Os vizinhos desembargadores e industriários sabem que ela é pianista e perguntam se ela ganhou o apartamento no divórcio com algum marido rico. Acho que eles pensam que os únicos artistas bem remunerados estão nas novelas da Rede Globo. Talvez não saibam que uma novela não é feita apenas com atores e sim com um mar de cenógrafos, pintores, arquitetos, técnicos, artistas plásticos, cineastas, coreógrafos, músicos e roteiristas, que trabalham e trabalham muito para ganhar um salário decente no fim do mês. Não há glamour na industria cultural.

 

Eu já sofri preconceito até no seio familiar quando mais jovem. Enquanto tenho uma família de servidores públicos, destaco-me como servidor DO público. A diferença é imensa! E a diferença é o tempero do preconceito. Não devia ser assim. Moramos em um país cujos gastos com CULTURA só é menor do que nos ESTADOS UNIDOS. Existe muito dinheiro para artistas aqui, desde que esses artistas sejam trabalhadores, honestos e comprometidos com sua arte e com seu público. O que estraga é a forma como somos tratados. Em 2017, tomei vários calotes. Prefeituras não me pagaram (foi o caso de BAGÉ - RS e CANOAS - RS), produtores culturais atrasaram pagamentos de forma vergonhosa e não deram satisfação.

 

Ser artista é lidar com a frustração diariamente, é verdade. Precisamos ser resilientes o tempo todo. Precisamos saber separar vida pessoal de vida profissional. Precisamos nos reservar e nos concentrar, precisamos saber empreender de forma sustentável e absolutamente ética. Precisamos nos reinventar a cada instante. Mas eu pergunto: em qual profissão essas atitudes não são necessárias? Apesar disso, conheço pais que são capazes de expulsar os filhos de casa ao saberem que estão fazendo testes para o teatro, ou tencionando começar uma carreira na literatura. Se o objetivo da vida é ser ético e feliz, saiba, todo artista é um pouco professor, um pouco empresário, contador, palestrante, mediador, produtor, técnico, faxineiro, advogado e até psicólogo de si mesmo.

 

Por isso, meus amigos, se você tem algum querido do coração que é ARTISTA, trate-o bem. Somos poucos e raros e gostamos de pessoas. Só queremos trabalhar, ser criativos, produzir e provocar esse mundinho cada vez mais estagnado, dividido e fragilizado. Se você é FÃ de um artista, não peça nada a ele de graça. Se você contratar um artista, pague-o no dia combinado. Se você tem um artista em sua casa, respeite o espaço dele. Se não é capaz de motivá-lo, pelo menos o escute. Não tema por ele, a não ser que lhe falte alegria no coração. E se puder olhar para dentro de si mesmo, ame o artista que também mora dentro de você. Ele pode parecer ingênuo como uma criança e até um pouco sentimental. Mas também é guerreiro e um amante de tudo aquilo que é natural e sincero. Ouça-o mais e reserve a ele um espaço do seu tempo. Fazer arte não é só um ofício, um hobby, uma forma de comunicação ou uma terapia. Para muitos, é o único meio de vida. Por isso, NOS RESPEITEM!

 

João Pedro Roriz é escritor, jornalista, professor e arte-educador. Texto publicado em sua página no Facebook.

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