João Pedro Roriz

Crítica - Um pai de cinema, de Antônio Skármeta

8 Sep 2017

DEIXA-SE ENGANAR, CORAÇÃO!

 

 

Começo a crítica com uma confissão: amo Antônio Skármeta e tudo que ele escreve. Pronto! A crítica poderia acabar aqui mesmo. Não há nada que a razão possa fazer diante das provocações do coração. O chileno, autor de "O Carteiro e o Poeta", aprendiz de Pablo Neruda tem o dedo doce. Escreve novelas como ninguém. E sua prosa curta contamina. Diria até que revoluciona pela simplicidade - último nível da sofisticação. O que sobra em Skármeta (a despretensão), falta nos outros grandes escritores que saem do passo básico da dança não apenas para abrilhantar a coreografia e surpreender o público com uma sucessão de evoluções, mas sim para denotar brilhantismo tolo e conquistar seu cliente.

 

Skármeta melhorou na sutileza desde o primeiro livro. O texto objetivo de um jornalista foi aos poucos transformando-se em movimento de arte. E o autor chileno não precisa de muitas páginas para denotar a franqueza rupestre de sua alma. Suas histórias têm começo, meio e fim. Elas são do tamanho certo para quem tem fome por apenas um dia. Essa versão diária da vida muito nos agrada! Além disso, consome todo um arsenal de nostalgia poética que parece transbordar de seu coração. Suas frases ainda ecoam. Ele gosta de "tamborilar o elenco de dedos" desde "O carteiro e o poeta". Ele tem as "têmporas prateadas" desde "O baile da vitória". E essas expressões se repetem nos livros. O crítico não liga! Essas expressões já deixaram de ser apenas marcas registradas para cumprir promessas espelhadas. Ao ler "Um pai de cinema" quase vi Mário Jiménez, herói popular de "O Carteiro e o poeta" na figura do jovem Gutiérrez. Claro, vi a lendária feição de Neruda no rosto do empático professor Jacques. Tenho certeza que os diálogos também não são totalmente inéditos.

 

 Cartaz do filme inspirado na obra de Skármeta

 

Apesar disso e do péssimo título que a tradução portuguesa ao pé da letra nos impôs (por favor, Editora Record!), "Um pai de cinema" cativa e está longe de ser um rascunho das outras obras do meu herói chileno. Não sei se digo isso por causa da paixão que me cega. Só sei que amo e não reprimo. É por causa do amor que ainda me indigno com a editora brasileira por catalogar a obra como "romance chileno" ao invés de "novela chilena". Brasileiro gosta de confundir a palavra "novela" com os folhetins televisivos que entopem as coronárias do povo.

 

Decidido estou a assistir o filme de Selton Mello chamado "O filme da minha vida". A película é inspirada nesta obra de Skármeta. Só o título me ganha. É melhor do que o original. Assistirei ao filme e tentarei não guardar rancor do jovem diretor e "O Palhaço" e de "Sessões de Terapia". Selton já mandou avisar no prefácio do livro que mexeu pauzinhos para tornar a adaptação mais cinematográfica. Não vou me antecipar e nem agir com preconceitos. Volto para contar o que achei. Assistirei ao filme por curiosidade fatalista - algo que não me induziu a assistir a versão italiana de "O carteiro e o poeta" para o cinema-show. O livro "Um pai de cinema" me inspirou grandes imaginações, mas me perdeu no fim. Esperava melhor desfecho e esse foi o único ponto realmente negativo da pequena prosa. Acho que a propaganda da Editora Record na orelha do livro nublou um pouco meus olhos de expectativas. Portanto, sobrou a curiosidade sobre como Selton descreverá o final da trama em seu filme. Acho que levarei meu pai comigo. Tomara que ele se identifique!

 

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João Pedro Roriz é escritor, jornalista, autor de 30 obras. Conheça.

 

 

 

 

 

 

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