João Pedro Roriz

Crítica - livro "O Xará", de Jhumpa Lahiri.

12 May 2017

AUTORA INGLESA DEFLAGRA INFELICIDADE HUMANA DIANTE DE SEU POTENCIAL DE CONQUISTA

 

Por João Pedro Roriz

 

 

A autora inglesa de família indiana Jhumpa Lahiri marca seu nome na literatura mundial com o best-seller “O Xará”, publicado no Brasil pela Editora Globo. A obra narra o período de cinquenta anos de conquistas e dificuldades de uma família indiana que migra para os Estados Unidos nos anos sessenta.

 

O choque entre gerações e o conflito permanente entre aqueles que nasceram na Índia e na América ditam o ritmo do livro que tem como protagonista o jovem Gógol, homônimo de um famoso escritor russo que é idolatrado por seu pai.

 

Além de expor com maestria técnica a fascinante história íntima dos imigrantes indianos nos Estados Unidos – e de esclarecer as fórmulas utilizadas por eles para adaptar sua cultura à nova residência, – Jhumpa descreve com grandes assertivas aspectos emocionais e os conflitos da geração Y no mundo ocidental. Para isso, usa como cenário a badalada e glamorosa cidade de Nova-Iorque. A novela tem trama atual, extremamente atraente, capaz de manter o leitor em suspense por vários capítulos mesmo quando aborda situações corriqueiras: uma forma de conquista através do trabalho, a passagem de tempo e a mudança de comportamentos e de formas de expressão, medos e angústias diante de conflitos iminentes, tentativas de superar traumas causados pela cultura familiar e/ou pela diversidade cultural experimentada pelos personagens e, principalmente, a crise de identidade do personagem principal.

 

É nesse ponto que o livro ganha relevância psicológica e filosófica. Jhumpa aborda diferentes modos de vida e de características de uma sociedade dividida e que pouco se comunica. Expõe os efeitos da globalização na célula familiar e dentro das comunidades ocidentais, além de esclarecer uma condição típica daqueles que se livraram do carma da busca pela sobrevivência no terceiro-mundo para desfrutar de certa colocação social. Nesse sentido, livres da luta pela sobrevivência, bem alimentados e autorizados a trabalhar, procriar, explorar, aproveitar o mundo e produzir dentro de um sistema social absolutamente funcional, os personagens parecem perguntar, quase que insistentemente: o que faço com tamanho potencial? Para que ele serve?

 

Entre todos os conflitos de Gógol mora a necessidade de expandir seu mundo para um limite que ele pouco conhece ou imagina. Sua família ainda reserva certas necessidades ritualísticas da velha Índia e não pode ajudar. A necessidade de ser compreendido faz com que o jovem vire as costas para a história de seus pais, para seu próprio nome e para a sua cultura de berço. Confuso diante de tantas e diferentes maneiras de viver uma única vida, cansado do pragmatismo de seus pais, o jovem abraçará uma ou duas possibilidades ao longo de sua jornada frente ao tempo, mas ainda assim – o leitor perceberá – não estará satisfeito.

 

A obra de Lahiri enche os olhos pela experiência social. É um manual de convivência que deve ser estudado por pais e filhos; um livro para acompanhar e valorizar, ao longo da própria jornada e para servir de exemplo. A literatura nesse sentido ganha aspectos factuais. A própria autora, filha de imigrantes indianos, parece ter vivido a jornada de seu protagonista e explora, com excelência sua predileção pelos autores russos. Professora de escrita criativa em uma universidade, a autora Lahiri aborda o mundo acadêmico e cria exemplos de construção de imagem através das palavras.

 

Sua maior conquista, agora no campo da alquimia, é transformar uma ideia e uma experiência em concretude, em fato e em realidade para aquele que lê.

 

(João Pedro Roriz é escritor e jornalista. www.joaopedrororiz.com.br)

Todos os direitos reservados ao autor.

 

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