João Pedro Roriz

Precisamos falar sobre a morte!

Perder um ente querido é um dos grandes desafios impostos por nossa natureza defectível. Feitos de carbono, sabemos, somos perecíveis ao tempo. E para todos os seres vivos cabe o mesmo destino: a desencarnação. Nem por isso, deixamos de nos apegar àqueles que estão ao nosso redor. Nem por isso, deixamos de nos apegar às nossas vidas. Esse fato pode parecer paradoxal, mas é através dos laços fraternais e dos cuidados com a saúde, que conseguimos sobreviver às tormentas, às pestes, às dificuldades e às guerras.

 

A ciência ainda não produziu uma máquina capaz de postergar o tempo, ou mesmo de fazer escassear todas as moléstias. Portanto, o desencarne se torna apenas uma questão de tempo. Apesar desse fato, a maioria das pessoas ainda trata a morte como um tema sobrenatural que deve ser evitado. 

 

A morte é normalmente encarada como vilã, como uma entidade negra e negativa que atormenta as esposas dos pescadores que partem em dias de temporal, que ri diante das labaredas cuspidas pelos vulcões, que passeia livremente pelos corredores dos hospitais e que se sacia com os infortúnios da humanidade. 

 

 VISÃO MITOLÓGICA DA MORTE: ASSUSTADORA E TRÁGICA

 

A antiga visão mítica da Morte foi criada quando a verdade da ciência e da razão ainda não havia agitado o espírito dos Homens. Hoje, diversas doutrinas religiosas, diversas teorias científicas e diversos conceitos filosóficos tencionam falar sobre este episódio comum a todos os seres vivos. Apesar disso, a maioria das pessoas prefere não conversar sobre a morte. A simples exposição dessa palavra causa arrepios e temeridades. O fenômeno é amplamente exposto nos filmes, nas novelas e na literatura. Mas não é discutido de forma profunda, não é tema das conversas familiares, não é abordado nas escolas. O assunto só é debatido por pessoas interessadas: doentes, moribundos ou idosos.

 

A morte é e sempre será um fenômeno ligado à dor e à saudade. Mas não precisa ser conciliado ao medo. E só existe um elemento capaz de combater o medo. O conhecimento. Ao discutir o tema sem tabus, descobriremos que o fenômeno da morte nos ajuda a refletir sobre a vida.  

 

 A MORTE CAUSA DOR E SAUDADE, MAS NÃO PRECISA CAUSAR MEDO

 

Sentir a dor da ausência e assumir que está triste é um movimento fundamental. A tristeza nos faz refletir sobre a vida. Porém, quando a tristeza se escasseia, é sempre importante pintar a vida com novas cores. Postergar o momento de tristeza em favor da memória de quem se vai não é uma atitude inteligente. Afinal, a vida de quem fica é sempre muito mais importante do que a morte de quem se vai. 

 

Muito choram suas perdas exageradamente e por tempo indeterminado apenas para chamar a atenção daqueles que se compadecem com a dor alheia. Muitos usam a dor da perda como pretexto para cometer atos desonrosos a fim de se aproveitar da resiliência daqueles que o acompanham. Outros, aproveitam o ensejo do desencarne de um ente querido para amaldiçoar a própria vida ou culpar Deus por infortúnios que mais tem a ver com más decisões do passado do que com o sofrimento causado pela tragédia. Alguns, aproveitam a oportunidade para acusar inimigos injustamente, ou jurar vinganças despropositadas.  

 

Lidar com a ausência do ente querido é sempre difícil. Mas a maior dificuldade ainda está relacionada com as limitações de quem fica. Perder um amigo será ainda mais complicado se você tiver dificuldades de criar novas amizades. A experiência de perder os pais será ainda mais amarga se você não caminhar pelas alamedas da maturidade. Perder um filho poderá ser ainda mais sofrível se você não souber compartilhar seu conhecimento com os filhos dos outros. Então, perceba: será que ao chorar a morte de um ente querido não estamos, de fato, chorando a morte das iniciativas próprias, da própria criatividades, da própria esperança, da própria coragem e da própria capacidade de amar? 

 

 O SOFRIMENTO DE QUEM FICA PODE SER COMBATIDO COM CONHECIMENTO

 

Não existem dois seres humanos iguais no mundo. É por esse motivo que as pessoas fazem tantos esforços para perpetuar a memória daqueles que se foram. Esse movimento gera um efeito colateral: a dificuldade de encarar a morte como uma forma de reciclagem. Para cada um que morre, outros tantos nascem. Assim, a energia do mundo se restaura. A morte sempre deixa uma lição implícita que pode ser aproveitada por quem fica. Quem parte sempre deixa um legado. O trabalho de um idoso é perpetuado e readaptado pelos mais jovens, o corpo de quem adoece serve de estudo, os órgãos de quem morre podem ser doados, os caminhos poderão ser seguidos, as virtudes podem ser copiadas, os defeitos podem ser evitados. 

 

Na pre-história, os seres humanos reverenciavam e temiam o fogo como se fosse um deus incompreensível e perigoso. Hoje, nós dominamos o fogo e aprendemos a evoluir com ele. Com a morte, certamente acontecerá a mesma coisa. Após estudar e controlar a morte, perderemos o medo mitológico que ainda temos sobre esse fenômeno macabro e desconhecido para utilizá-lo a nosso favor. Mas antes de aprender sobre a morte de quem vai, teremos que aprender um pouco mais sobre a vida de quem fica: o que é, para que serve e como lidar com ela. Esse é o maior desafio. Entrar em contato com a própria essência é trabalhoso. É mais fácil colecionar tabus e temer personagens horripilantes que nos afastam da fé e da verdade. Como dizia o filósofo Sócrates, "conhecimento é virtude, ignorância é vício", 

 

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João Pedro Roriz é escritor, jornalista e arte-educador. 

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