João Pedro Roriz

Você se acha feio?

17 Apr 2016

 

 "A beleza está nos olhos de quem vê". É muito comum escutar essa frase, principalmente em resposta a um elogio. Mas o inverso da frase também é verdadeiro: “o feio está nos olhos de quem não vê”, afinal, quem alcunha o diferente de feio, pode ser considerado uma espécie de cego.

 

A beleza é um atributo subjetivo, mas apesar disso, é sempre padronizada, qualificada e rediscutida pela nossa sociedade. Isso só acontece porque a beleza está intrinsecamente relacionada à familiaridade e à proximidade crítica. Mas essa análise crítica difere de acordo com o local e a cultura. Portanto, não é unânime. Difícil? Vamos detalhar um pouco mais.

 

Em algumas tribos africanas os guerreiros são escolhidos pelas mulheres da aldeia para servirem como maridos. Para isso, participam de um ritual bem peculiar: ficam enfileirados, dançando enquanto arreganham os dentes e esbugalham os olhos. As mulheres são atraídas pelo branco dos olhos e pela beleza da arcada dentária do pretendente – atributos que desejam para seus futuros filhos.

 

Tal comportamento certamente será considerado estranho, feio e esquisito por grande parte da sociedade ocidental. Por outro lado, quem está acostumado a conhecer outras culturas e está disposto a coexistir com diferentes formas de conhecimento, terá maior facilidade de entender a beleza que reside neste ritual tão particular.

 

O belo e o feio não são elementos unânimes – são interpretações que perpassam pela opinião daqueles que avaliam padrões relacionados a uma determinada cultura. O feio neste contexto, seria adverso a tudo que é considerado consagrado e o bonito seria o resultado auferido pela organização de um comportamento ou de um padrão estético considerado correto ou aceitável.

 

Sugestão de leitura

 

O livro "Céu de um verão proibido" (Editora BesouroBox) é divertido, emocionante e cheio de mistério. A obra transpira adolescência, fala sobre as primeiras escolhas e sobre dúvidas como a apresentada neste artigo. 

 

Essas condições são muitas vezes impostas por uma tradição, ou por uma contextualização histórica ou mesmo pela geografia. O Rio de Janeiro é um local quente. As pessoas usam menos roupa no calor e fazem esportes para ter um corpo mais magro e maleável para que possam trabalhar em ambientes quentes sem suar tanto. Logo, em sua grande maioria, as pessoas magras e com corpo atlético serão mais aceitas por aquela sociedade. Isso não justifica, evidentemente, de nenhuma maneira, atos de discriminação ou de crueldade com pessoas que não se enquadram nesse paradigma social; ao contrário, torna evidente a automatização radical dos hábitos sem uma predisposição reflexiva.

 

A padronização da beleza proposta pelos meios de comunicação elege algumas classes em detrimento de outras. Pessoas brancas com olhos azuis, cabelos amarelados, pele uniforme e rosto considerado “simétrico” possuem maior grau de aceitação no mundo ocidental do que outras com condições físicas diferentes. Isso pode ocorrer por conta da origem da formação dos grupos sociais, quase todos oriundos dos povos europeus que têm como berço cultural e filosófico a antiga civilização grega. Naquela civilização, a beleza tinha avaliação originada na ideia coletiva do que poderia ser a constituição física dos deuses. Corpos considerados sãos eram sinônimos de mentes consideradas sãs, pois mente e corpo, para os gregos, eram um único elemento.

 

 Para os gregos, mente e corpo eram único elemento

 

Nem Jesus Cristo escapou dessa padronização. Indícios arqueológicos sugerem que Jesus era moreno, estatura baixa, possuía uma barba negra e cabelos crespos muito escuros. Apesar disso, ele é pintado nos quadros como um homem alto, com cútis clara, olhos verdes e uma barba avermelhada (quase viking) que lembra os velhos deuses do Olimpo.

 

Se você se acha feio(a), pode saber que você tem um problema. Mas não de ordem física e sim psicológica e, eu diria, intelectual. É hora de observar os motivos pelos quais você considerou a possibilidade de não estar apto a fazer o que quer por causa de seus atributos físicos, sejam eles quais forem. Nesse ínterim, cabe uma autoanalise, um mergulho interior e a busca pelo prazer em modalidades que lhe sejam permitidas praticar, seja no esporte, na cultura, nos relacionamentos ou na prática de atividades tecnológicas. A beleza que você espera que os outros encontrem em você deverá vir não de seus atributos físicos (seja você louro dos olhos azuis, negro, mulato, japonês, índio, gordo, magro, alto, baixo ou verde), mas sim da alegria que você sente de estar vivo e de ser útil para com a sociedade. A sua segurança de ser e de servir tornará você um colírio para os olhos, para quem quer que seja.

 

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João Pedro Roriz é escritor, jornalista, ator profissional e palestrante. Suas palestras motivacionais são dramatizadas e fazem sucesso em todo o País. Conheça suas palestras e seus livros no site: www.joaopedrororiz.com.br.

 

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