O visível fundamental aos olhos



Corrijam-me se eu estiver errado. Confiamos muito nas redes sociais para a manutenção das amizades, para a divulgação dos nossos trabalhos, para compartilhamento dos nossos bons e maus momentos. E quando o país entrou em ebulição com os eventos políticos marcantes dos últimos anos, associado a uma saturação de informações descoordenadas, relacionado a certo deslumbre com a imagem, com a necessidade de um progresso disposto através de vozes, vídeos, cores e formas que não atendem mais a uma realidade objetiva - tudo isso coordenado por algoritmos frios produzidos por uma indústria distante, - perdemos contato com o crucial, com o experimental, com aquilo que é básico, que começa com o olhar e concretiza com o aperto de mão, com o abraço, com a ligação telefônica, com o acerto de contas. Sim, o mundo está prático. Mas também está apático. O mundo virtual tornou o mundo real demais! Está tóxico. A ponto de parecer que já inventamos tudo e que nunca mais haverá novidade tão boa. Estamos hoje acorrentados a guetos, vivendo em bolhas, trabalhando em feudos pouco dialéticos e muito reservados. Revisitei recentemente algumas mensagens antigas do Facebook, anteriores ao incêndio que nos dividiu, e vi adolescentes empolgados conversando sobre livros; pessoas discutindo sobre caminhos que realmente levavam para algum lugar; mostras sutis de um carinho que se revelava no mundo real. Agora, há pouco disso. Não se busca mais parente no aeroporto, não se faz mais reunião com os amigos, não se discute mais literatura, não marcamos mais aquele cooper juntos, não traçamos metas para um trabalho conjunto. O telefone toca e no bina aparece um número impessoal de alguém tentando (desesperadamente) vender alguma coisa. De repente, nos tornamos todos empresários desesperados para vender uma ideia, um medo, um desarranjo mental, uma bombinha de asma, uma solução prática, um suspiro, um pedaço de alguma coisa sem história, uma garrafa com mensagem que não atravessou o oceano. O objetivo hoje, seja ele qual for, reside naquilo que está além do humano, naquilo que é urgente, que é necessário, que se torna visível e fundamental para os olhos, que é capaz de provar alguma coisa a alguém. E, quando você se dá conta disso e tenta sair desse círculo vicioso, para tentar um contato pessoal, uma ligação, um sorriso, um gesto, as pessoas mal acostumadas com a savana da afeição pura, se assustam, se recolhem, temem de medo, ficam céticas e te expulsam. Amados! Tô numas ânsias de sair desse circuito e ver se sobrevivo, porque às vezes, parece que não mais.


João Pedro Roriz é escritor, professor e jornalista.

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