Uma viagem pela Amazônia que não existe mais

Atualizado: 23 de Nov de 2019


UMA REGIÃO DEVASTADA PELA MONOCULTURA, MARCADA PELA INVASÃO DE TERRAS, CONFLITOS E MASSACRES.

Pousei na Serra dos Carajás com meus amigos Fábio e Bruno para realização de uma palestra

Voei até a Serra dos Carajás, encravada em pleno Pará com o objetivo de realizar, junto com meus amigos Fábio e Bruno (foto), uma palestra teatralizada para professores na cidade de Xinguara.

Estava emocionado no avião por ver o mar verde-escuro formado pela Floresta Amazônica que se estende do centro do Mato Grosso até o extremo norte da América do Sul. Quem sobrevoou a região sabe o que senti: uma emoção de ver ao vivo a vastidão da maior floresta tropical do mundo. Quem for ao Amazonas, em um voo baixo, poderá sentir com ainda mais intensidade a força dessa natureza selvagem e rica.

Logo após pousar na Serra dos Carajás, é possível sentir a força da natureza verde, graças a uma reserva mantida em torno do aeroporto particular da Vale do Rio Doce. Mas assim que peguei a estrada em direção a Xinguara, pude notar os terríveis desafios da região explorada por monocultores e extrativistas.

Cadê a floresta amazônica? Durante as quatro horas de viagem, apenas pastos

A região está totalmente desconfigurada. Não se vê os apelos da cultura paraense tão comuns em Belém, cidade que, pelo visto, é a guardiã da tradição local. Em detrimento da música típica, o que se escuta nas estradas do interior é o sertanejo universitário. A gastronomia típica do norte não existe naquela região que sofre influência direta da culinária do centro do País. Geograficamente, há uma explicação: Carajás está localizado mais ao sul do Pará, a 867 km da capital Belém. Está próxima de outros estados como o Tocantins, que exerce grande influência cultural e comercial na região. As cidades próximas a Carajás (Parauapebas, Marabá, Eldorado, Canaã e Xinguara) são alimentada pelo dinheiro da exploração de minério feita pela multinacional Vale do Rio Doce. A prática extrativista abre verdadeiras feridas no centro da Amazônia.

Mas o que me assombrou pra valer foi a transformação ambiental e climática da região. O bioma florestal que, até a década de 90, ainda figurava em pequenos recantos da região, foi reduzido a micro-reservas na Serra dos Carajás e dentro de fazendas monocultoras. A região toda está seca como no centro do País. A Amazônia transformou-se em um cerrado. Os rios estão secos e muito abaixo do nível normal. A fauna local é escassa. Com o desmatamento, vem as doenças. Especialistas em biodiversidade, como o primatólogo Sérgio Lucena, acreditam que alguns vírus perigosos, como o da febre amarela que atualmente assola o centro-sul do País, estão estabelecidos em matas e regiões silvestres com baixa ocorrência. De repente, por conta do desmatamento, se propagam rapidamente, atingindo macacos e humanos. Os animais começam a morrer primeiro. "São sentinelas. Se o vírus começa a se propagar em determinada área, a morte dos macacos nos envia um alerta", explicou o cientista ao site do EBC.

Na volta, tirei essa foto da janela do avião e me assombrei com o tamanho da devastação

O consumo exacerbado de carne de gado na região me chamou a atenção. Com frutas saborosas e grandiosa variedade alimentos, a Região Norte do País se destaca no cenário gastronômico nacional. Teria a monocultura de pasto e a criação abundante de gado influência direta no interesse culinário das pessoas daquela região? De que modo essa influência se daria? São perguntas que ficaram sem respostas, dado o pouco tempo de permanência no local. Mas tive a impressão de que há uma massificação da mídia em torno da carne de gado e certa influência das monoculturas sobre a gastronomia e sobre os hábitos das pessoas. Um indicativo disso é o fenômeno do "coronelismo moderno". Grande parte dos prefeitos daquela região do Pará é formada por fazendeiros monocultores. São herdeiros de terra que usam enormes áreas para o plantio de pasto e criação de bois. Se de um lado, há aqueles que apoiam a monocultura, pois acham que são beneficiados pelos empregos, do outro lado, os ambientalistas protestam. O desmatamento aumentou 26% em relação a 2015 e mudou completamente o panorama da região. Diferentemente do que ocorre no Rio de Janeiro ou em São Paulo - onde a mata atlântica é criminosamente devastada em decorrência do crescimento das cidades, - no Pará, a floresta é destruída para benefício de uma minoria rica.

Invasores sem-terra levantam favelas de palhoça e pau a pique na beira das estradas

Durante o caminho, pude ver as choupanas feitas de palhoça e pau a pique ao longo das estradas. Eram milhares de sem-terra revindicando um pedaço de chão. A discussão no carro foi simbolo de algo que já é conversado em altas instâncias do poder público:

- Esses sem-terras não tem o que fazer. Entram em terras produtivas, matam o gado, destroem tudo e quando ganham um pedaço de terra, vendem para outras pessoas para depois voltar a atacar outras fazendas.

- Mas são todos que fazem isso?

- Não são todos. Mas a maioria. São uma quadrilha que se beneficiam dos projetos da reforma agrária.

- Mas... quando eles ganham a terra, não têm o direito de vendê-las?

- Às vezes vendem para o antigo dono, o fazendeiro.

- E esse fazendeiro... por que um único homem é dono de tanta terra?

- Herança...

- Herança de quem?

- De barões e desembargadores, de homens graúdos ainda do tempo do Império.

- E esses homens, ganharam as terras de quem?

- Do Governo, creio eu...

- E quem habit