Crítica - Livro "No Clarão das águas", de Jorge Fernando dos Santos

Atualizado: 26 de Nov de 2019


HISTÓRIA CAPAZ DE ACENDER UMA FOGUEIRA NO PEITO

Não é de hoje, que tenho tropeçado em superficialismos. Nas estantes das livrarias, automatismos, ansiedades, formas genéricas de sucesso e algumas assertivas literárias em poucas biografias. Granjear novas experiências literárias está cada vez mais difícil, ainda mais para leitores como eu, apaixonados pela boa prosa, pelos contadores de história, aquela doce lembrança que faz o sumo da laranja escorrer pela boca.

Quem acompanha minha coluna deve pensar que deixei de ler. Nunca! As poucas publicações sobre minhas leituras são resultado dessa escassez qualitativa.

Pois é... mas eu insisti! Montei minha tropa pelas margens do Rio São Francisco e encontrei um relógio de prata escondido sob suas árvores copadas.

A obra se chama “No Clarão das Águas” (Paulus – 2004), de Jorge Fernando dos Santos. Um livro que passa quase despercebido em uma banca da Editora Paulus, em Feira Literária de Goiânia onde fui palestrar. O livro verde me chamou a atenção pela beleza das aquarelas de Ana Raquel e pelo título que prometia algumas emoções.

Logo no começo da história, descobri-me plural, Tespis a interpretar dois personagens de uma só vez: o protagonista, Duda um menino de 11 anos, que divide a narração com seu avô. Campeiro, o velho de Minas mata a saudade dos tempos que era tropeiro e rasgava o coração da mata para visitar comunidades distantes. Junto com ele, ao menos nas raias da imaginação, vai seu neto favorito, sempre apaixonado por suas histórias. Impossível não se lembrar da infância.

Ao descobrir que não teria muito tempo de vida, o velho tropeiro resolve marcar uma última viagem ao Velho Chico – apelido do Rio São Francisco. Para sua surpresa, no meio do caminho, descobre Duda escondido na carroceria da caminhonete. É tarde demais para desistir. Aqui, começa a aventura de neto e avô. Juntos, descobrirão que o tempo produz tragédias e emoções, mas que podem ser regatadas e revisitadas.

A obra foi lida durante a viagem de poucas horas entre Goiânia a Porto Alegre. O marasmo do trajeto se transformou em uma rica aventura. Jorge, o autor, sabe comunicar sua paixão e contar uma bela história. Seu livro é emocional e saudoso. Por várias vezes, tive que conter as lágrimas para não chamar atenção dos outros passageiros do avião. O cheiro de terra molhada, o ar limpo do interior de Minas, as mudanças de cenário que vão da cidade para o campo, a culinária local e a personalidade forte dos tropeiros estão impregnados em mim até agora. As experiências vividas por Duda suscitaram lembranças antigas, seu avô resgatou a imagem de Vovô Ederlindo e Vovó Eunice, que me entretinham por horas com suas sendas sobre o sertão.

Temas fundamentais para jovens como meio-ambiente, relação entre as gerações, vícios, despreparo das famílias com as subjetividades dos idosos, sexualidade e morte compõem essa novela absolutamente necessária para projetos pedagógicos dentro das escolas, principalmente para alunos entre sexto e nono ano do ensino fundamental.

No Clarão das Águas cria uma fogueira no peito e prova que a verdadeira literatura mora hoje longe das grandes redes de livraria. Está longe das grandes máfias comerciais, acima do senso comum, está nos caminhos de cada um, no pátio de uma escola, na banca de uma editora na feira escolar, nas bibliotecas, na memória dos velhos, na alma criativa de grandes – e pouco divulgados – autores brasileiros.

João Pedro Roriz é escritor e jornalista.

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