Crítica ao livro "O Segredo de Yanklev Schimidt"

Atualizado: 13 de Dez de 2019


UM MUNDO DE ARAMES FARPADOS

O Brazil não conhece o Brasil e o Brasil pouco conhece o mundo. É quase um cinismo o que sinto quando vejo autores brasileiros escrevendo obras literárias com cenários que não envolvam estereótipos de nossa vasta cultura. Romances então é de fazer rir, ou bocejar. Mas eu nunca entro em uma livraria com esse pensamento. Estou sempre em busca do meu cálice sagrado, aquele que me fará tapar a boca e engolir a língua. E esse dia finalmente chegou!

Com uma prosa que lembra Ken Follet na construção vibrante de imagens de grandes compêndios históricos, saio rua acima devorando alguns cadáveres em um movimento quase antropofágico. “O Segredo de Yanklev Schimid” de Júlio Ricardo da Rosa não tem nome de super seller, não tem a capa mais linda do mundo e não está listado entre os mais vendidos do New York Times. Mas ele está entre os lançamentos da editora gaúcha Dublinense.

Para mim, o grande mistério desse livro não giraria em torno da história, mas do caráter ficcional deste autor que não parece temer a sanha aventureira de sua profissão. Pensei: não é todo autor brasileiro que se dispõe a apresentar os mais variados ambientes europeus com todas as suas subjetividades políticas, climáticas e sociais. Agora, depois de lido/sentido/assistido à trama de Júlio Ricardo da Rosa, chego a embaçar a vista de vergonha. Primeiro pela desconfiança inicial, segundo porque finalmente percebo que, como homem de letras, não costumo sair de meu conforto habitual quando escrevo.

“O Segredo de Yanklev Schimid” conta a história de um rapaz judeu que faz um trato com um soldado alemão para escapar da morte em um gueto na ocasião da ofensiva americana. A história começa na Alemanha em 1945, passa pela Argentina nos anos 60 e termina no Rio Grande do Sul quase na atual conjuntura. Se eu for buscar erros ou defeitos no livro encontrarei. É certo que sim, pois não há beleza sem senão. O autor atravessa o compasso de sua narrativa em algumas passagens quando a emoção alcança o ápice no meio da obra para o final. Mas eu nem ligo muito e sigo em frente. Afinal, Da Rosa não me leva rápido ao orgasmo. Ele para, respira e recomeça tudo novamente, ponto a ponto, gota a gota, até construir todo um novo mundo tântrico de história e prazer. E este mundo contrutido por Da Rosa é possível, é concreto. Dá pra viver nele.

O escritor Julio Ricardo Da Rosa

Já não me assombro mais com o bairrismo dos escritores gaúchos. Não gera surpresa encontrar a cidade de Porto Alegre na obra de um escritor dos pampas, ainda mais lançado por uma editora desta terra de extremos climáticos. Mas para além do idealismo barato de alguns artistas desta capital do mundo, o autor garante 99,9% das assertivas históricas, nos envolve com um belíssimo trabalho de pesquisa e nos mostra um mundo ainda recente, mas que tem perdido gradualmente nitidez na memória coletiva com o passar dos tempos, principalmente após a morte das poucas vítimas que restam da Grande Barbárie.

A obra ainda nos traz retratos muito claros sobre a Guerra Fria, sobre o período das ditaduras na América do Sul, sobre o movimento de imigração dos europeus no Brasil após a Grande Guerra e sobre a mesquinhez política e social universal do Homem. É um livro preto e branco. E de repente, já começo a entender sua capa. Após ler as 285 páginas da obra, me quedei paralisados em pleno domingo, cercado pela família e pelos pensamentos sob a aura negra da abobada noturna. Refleti: “será que há de raiar o dia em que finalmente seremos felizes?”. A obra de Julio Ricardo da Rosa me apresentou um mundo de arames farpados e denotou um ceticismo amargo contagioso que, de certa forma, já reinava dentro de mim.

O tempo e a vivência humana, os acertos e desacertos, as veredas íngremes em que nos acotovelamos todas as vezes que nos vemos penitenciados como escravos, seja de um sistema de governo, seja pelo consumismo histriônico, seja pela cultura familiar ou pela ordem degenerativa de nossas limitações físicas. Tudo isso está ali exposto em uma história que poderia ser a de qualquer um. Meu medo do mundo aumentou, mas ao mesmo tempo, Júlio me deu uma aula de xadrez. Me ensinou a respirar fundo e ter mais olhar perspectivo, seja em relação às minhas esperanças idealistas por um País melhor, ou mesmo em relação à minha condição como artista neste País tropical abençoado por Deus.

Júlio não nasceu ontem. Bem se vê no livro. Seus cabelos brancos e óculos redondos já são conhecidos nas searas dos principais jornais do Rio Grande do Sul. Ele possui outros dois romances que preciso comprar para a minha coleção. Mesmo sabendo que se trata de um escritor experiente, foi impossível não se surpreender com tal regalo, com a qualidade excepcional e surpreendente de seu exercício literário. Uma ou outra passagem um pouco mais forçada, uma dose de sexo fortuita e até mesmo o Diário de Ane Frank numa comparsaria absolutamente desnecessária durante a narrativa não me fizeram entortar a boca. Eu segui fluido, divertido, louco para me aprimorar como escritor e desvendar os mistérios desta obra bem acabada.

Sobrou, no final da leitura, o desprezo que sempre senti pela máquina mafiosa de distribuição dos livros no Brasil, pelo controle de material que leva porcaria para as livrarias em todo o País ao invés de experimentados autores que ainda se escondem no vão do idealismo necessário e salvador de pequenas editoras. O Brazil não conhece o Brasil. E o Brasil ainda não conhece esse grande autor do Sul. Se ele tivesse nascido num país europeu devastado pela Grande Guerra agora estaria tão rico quanto o seu personagem, Yankclev Schimid. Seu livro seria traduzido para várias línguas e ainda ganharia uma versão cinematográfica. Assim como o protagonista de seu livro, me parece que esse autor de cabelos brancos e de óculos redondos tem alguns tesouros encavados no quintal de sua casa. Se deixarmos por conta dos arautos midiáticos destes brasis tão díspares, dos pensadores mesquinhos sempre preocupados em manter a própria chama acesa, dos escassos leitores de nossa pátria mãe gentil e do quinhão de boa vontade dos plutocratas do mercantilismo literário, esse tesouro continuará enterrado numa cova rasa, a parte que te cabe neste latifúndio.

João Pedro Roriz é escritor, ator e jornalista. Todos os direitos reservados. E-mail: jproriz@gmail.com.

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